terça-feira, outubro 23, 2012


Prezados possíveis e inverossímeis leitores

Todo dia eu penso em retornar a esse blog, mas todo dia tenho uma enorme crise de preguiça.
Às vezes volto, releio alguns posts, rio de mim mesma, fico apavorada com o fato de já ter esquecido de 40% das coisas aqui narradas. Aparecem alguns comentários fofos de gente que, não sei bem como, ainda encontra esse blog nos mecanismos de busca da vida. Tudo isso é incrível, e me deixa bastante animada e inspirada. Mas aí eu deito, e espero passar.

De qualquer forma, por enquanto, o blog está fechado, sem previsão de reabertura. Talvez amanhã, talvez nunca mais.
Mas agradeço imensamente a todos os amigos que apareceram e ainda aparecem por aqui.

Beijos a todos, e muita sem-noçãozice para todo mundo.

Lu Xavier
Um Mundo sem Noção

terça-feira, março 20, 2007

Pois é, até eu estou sentindo minha própria ausência.
E não, não é pelo fato de que eu tenho andado muito ocupada. Nem pelo meu parco acesso à internet, visto que meu atual marido volta e meia dá umas saidinhas e deixa o pc liberado pros ratos fazerem a festa. E tampouco o motivo seria a falta de bizarrices acontecendo em meu cotidiano. Elas se sucedem incessantemente de forma extraordinária. Ainda mais neste balneário povoado pela sem-noçãozice.
Bem, qual a desculpa então que eu vou dar pra vcs?
Talvez uma auto-censura, assumo.
Preocupada com o que alguém pode pensar, ou sentir, caso leia estas entrelinhas mal-pautadas.
Um pequeno acesso de bondade e consideração com os sentimentos alheios, mas, em breve, prometo que vou voltar a ser má. Muito má. E meter o pau na galera sem-noção. Podem deixar.
Beijos a todos

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Casual sex

Copiei e colei a coluna da Carla Rodrigues, do Nomínimo (nominimo.com)
Um dilema que, seguramente, faz parte da nova fase da minha vida, nesta terra tão cheia de negões.


Lenha na fogueira do sexo casual

A partir da experiência de publicar o relato da jornalista Yannik D’Elboux, que suscitou amplo debate sobre o comportamento feminino em relação ao sexo, aceitei de bom grado oferta da leitora ReOx, do blog mulherzinha.blig.ig.com.br, auto-definida como “paulistana fascinada pelo comportamento humano”. A proposta dela é instigante: para fazer sexo como os homens, as mulheres precisam mudar todo o comportamento, desde os critérios de conquista até a atitude do dia seguinte. Confiram:

Por que não “damos” certo?

A maior conquista do feminismo foi a liberdade de podermos agir conforme dita a nossa própria vontade. Se a nossa vontade diz que devemos agir como homens, por que não tentar? A verdadeira questão é: será que conseguimos mesmo agir como eles? Será que estamos preparadas para as conseqüências disso?

Quando nos insinuamos a um homem e deixamos claras nossas intenções – sexo casual, por exemplo – corremos o risco de receber um “não” sem que isso queira dizer nada além de “não estou a fim no momento, obrigado”. Ora, quantos “nãos” já dissemos a homens que só queriam sexo quando não estávamos com vontade, ou quando queríamos algo além disso?

A diferença é que os homens, normalmente, já estão preparados para os “nãos” de suas investidas, enquanto nós ainda estamos engatinhando neste quesito. Somos mimadas e estamos acostumadas a dizer não ao invés de escutá-los, mesmo que apenas ocasionalmente.

Você já parou para pensar que, quando um homem escolhe uma parceira para uma noite de sexo sem compromisso, ele pode estar optando por uma mulher pela qual não imagina a menor possibilidade de vir a se apaixonar? O homem tem o dom de olhar objetivamente para os atributos físicos da parceira, e isso pode ser suficiente para preencher suas necessidades naquele momento: sexo. O homem se excita com o apelo visual e isso pode bastar.

Só que nós, as mulheres de atitude, decididas e pós-feministas não temos a mesma objetividade na hora de escolher um parceiro eventual. Somos diferentes, oras. O buraco do nosso tesão fica mais em cima. Não olhamos apenas para o corpo que pode nos proporcionar maior prazer e sim, para o conjunto. O cara tem que ter um bom papo, nos fazer rir, ter um bom nível social, intelectual…

Ué, mas não é só pra transar? Pra que tudo isso?!

Ao escolher um homem interessante (que tenha outros atributos além dos físicos) corremos sim o risco de nos apaixonar e querer prolongar a noite para duas, três, quatro, namoro, noivado, casamento, filhos, ai, que cansaço.

Nossas intenções acabam mudando de acordo com o grau de gostosura de um homem (que inclui todos os atributos citados acima) e então não conseguimos sustentar o papel de mulher fatal por muito tempo. Somos assim. E quando tentamos não ser, quando tentamos agir como os homens, começamos bem, mas depois misturamos as bolas, ficamos inseguras, perdidas, uó.

Se você quer agir como homem, faça isso, mas do começo ao fim:

1) Mantenha em mente um único objetivo: uma noite de sexo e nada mais. Eu disse NADA MAIS;

2) Escolha um parceiro que atenda, preferencialmente, apenas a esta expectativa: uma noite de sexo bom. É importantíssimo que ele não tenha muitos atributos extras. Você deve se perguntar “posso me apaixonar por esse cara?” Se a resposta for negativa, você está diante de um bom candidato;

3) Esteja preparada para receber um “não” sem levar para o lado pessoal (um homem também pode estar disposto a algo mais. Pode pensar “ela só está a fim de me comer e eu quero romance!”, não pode?);

4) Esteja preparada para ter alguém ligando no dia seguinte, mandando flores, cobrando compromisso e saiba dizer “não, obrigada”, educadamente, mas sem dispensar totalmente, principalmente se o sexo tiver sido bom, é claro. Nunca se sabe quando a quarta-feira vai ser chuvosa.

5) “Os dispostos se atraem, os opostos se distraem” (frase de Fernando Anitelli, líder do grupo musical independente O Teatro Mágico). Procure alguém que pareça estar com a mesma intenção e não queria mudar suas intenções no meio do caminho. Entrou pelo sexo, vá de sexo até o final.

6) Fingir paixão para ganhar sexo também vale. Só não vale acreditar na própria mentira depois;

7) Também vale beber um pouquinho a mais antes do encontro. Assim você tem a possibilidade de acordar e tentar acreditar que tudo não passou de um sonho (ou de um pesadelo!).

Vale ressaltar que, salvo raras exceções, ainda não aprendi a aplicar a teoria na prática.

Sobre esta prática libertadora, eu já tinha ouvido falar que no Egito antigo, as mulheres, e não os homens, faziam xixi de pé. A imagem abaixo me foi passada pelo Henrique e pela Íris, aqui de Salvador. Eles me mandaram este e-mail, explicando a proposta de iniciativa tão educativa e iluminadora.

"Sobre a proposta: podemos dizer que somos uma vagina e um pênis numa
tentativa de rejeitar as contruções culturais impostas através do gênero.
Pensamos que o ato (e a maneira) de fazer xixi impostos aos diferentes
gêneros é reflexo de uma cultura misógina, assim como as consequências que
isso acarreta. O texto e as figuras foram retirados e traduzidos do zine
Menarquia: http://danae.tv/menarquia. Estamos fazendo ele num formato menor
pra podermos distribuir na rua, assim que terminarmos de editá-lo, te
enviamos o arquivo e ai se você quiser, distribui também. Qualquer dúvida
sobre o xixi em pé pode nos escrever, tentaremos ajudar e qualquer discussão
sobre o assunto topamos também. :)
Muito foda saber isso do Egito, achei um blog em que a menina fala
que o Heródoto escreve sobre isso num livro(ela não diz qual livro), estamos
a procura desse livro!!! Você descobriu isso aonde?
Tirando isso, estamos editando um livro de bolso que são dois capítulos de
um livro da Naomi Wolf chamado O Mito da Beleza, aonde ela discute a questão
do sexo (pornografia, sado-masoquismo, e sua relação com as imagens da
beleza). Deve sair em um mês, mais ou menos; e fazendo algumas traduções:
tamo traduzindo o site the-clitoris.com e alguns artigos e coisas
interessantes do girlswholikeporno.com, assim que terminarmos as traduções
vamos postar lá no confabulando (www.corpuscrisis.org/confabulando).

abraços!
henrique e íris
dois-corpos@hotmail.com "

Libertação feminina

Como eu ando sem assunto, resolvi proporcionar a todas (e não a todos) a chave para a verdadeira libertação feminina. Vi isso colado nas paredes de Salvador, e decidi reproduzí-lo para o mundo. Cliquem na imagem para ver com mais definição.



Eu juro que tô me esforçando. Eventuais iniciativas êxitosas deverão ser divulgados aqui no blog.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Promessa de Ano Novo

Uma das minhas promessas de ano-novo é manter este blog sempre atualizado. A outra foi tentar, só tentar, deixar de ser mané.

- Lulu, não dá, a gente não aprende! Que merda!
Não dei um pio. Cansada, o pé escorregando dentro da sandália por causa da água da chuva, deixei Anne reclamar e tentei abstrair. Quase 5h da manhã, metade da minha calça branca havia adquirido uma outra coloração, que variava entre o marrom argila e o preto asfalto, sem ter dado nenhum beijo na boca, e ? pior! ? sem nenhum efeito do álcool na mente. Nenhum artifício para tornar aquela madrugada do primeiro dia de 2007 um pouco mais engraçadinha. Suspirei.

Se isso for um indício de como será o resto do ano, tira Saddam daí de cima que eu tô me candidatando.

Estava tudo ok, passagem do metrô na mão, nada de muvuca, pontualidade, blusinha azul comprada na C&A pra passar o ano novo com tranqüilidade e nenhum ônibus queimado pelo caminho, lá fomos nós, com escala em Copacabana, para Ipanema, onde eu e minhas coleguinhas iríamos participar do super show super legal do super grupo super multi-étnico Black Eyed Peas. Guerreiras como sempre.

A escala em Copa seria na casa de Vilter, amigo de Anne (meu que não é!), onde confraternizaríamos um pouco com seus familiares e confrades, comeríamos uns cocrete e começaríamos a preparar a nossa deliciosa mistura alquímica, daquela famosa bebida feita de coca com aquela outra famosa bebida dos piratas, cujo nome é baseado naquela famosa ilha comunista caribenha. Chegamos no prédio e o elevador não funcionou. Mau presságio. Mas não demos importância. Subimos e fomos recepcionadas com todo o carinho e afeto.Vilter nos avisou que só ?marcaria um dez? com a parentada, e logo estaria liberado para a farra. Dois pocinhos de ingenuidade, eu e Anne acreditamos.

Família reunida, cervejinhas, salgadinhos, musiquinhas, conversinhas, o tempo passou. Eu e Anne num cantinho, meio deslocadas, meio sem graça, meio sem assunto. Minha bolsa (e o rum, ainda intacto) estavam seguramente guardados no quartinho de empregada, na área de serviço. 22h00. ?Bora, Anne??, cutuquei. Vilter, lá dentro, jogava vídeo-game com o afilhado de 7 anos. 22h30. Anne perguntou por Vilter. ?Ele já vem?, responderam. De acordo com a semiótica das cores, a minha blusa azul da C&A com decote canoa super in pregava tranqüilidade. 22h45. Vilter surge na sala, com uma cara séria e enigmática. Anne se levanta e comunica a todos que estávamos de partida. Logo ouvimos um pranto infantil dorido. O afilhado veio correndo lá de dentro e se atirou aos pés de Vilter, o padrinho malvado, chorando, pedindo para que ficasse. Imediatamente, ouvimos um côro: ?Vilter, você vai sair????, e toda a família nos olhou, furiosa. Senti o climão em um crescendo vertiginoso.

Eu e Anne tentamos ir nos despedindo, distribuindo beijinhos fast-food pelos presentes, enquanto Vilter tentaria desembolar o pepino. Mas ? pasmem! ? Vilter continuava em silêncio, enquanto era cravejado de perguntas cobratórias sobre sua atitude herege de passar o reveillón longe da família. O tempo passava e os The Black Eyed Peas nos esperavam. Puxei Anne rumo à cozinha, para sairmos, à francesa. Mas perceberam, e fomos seguidas pelos familiares irados através do diminuto corredor. De repente, ficou todo mundo embolado, a passagem obstruída, pessoas gritando, crianças chorando, e eu também, enquanto tentava explicar que não iríamos pegar nenhum ônibus inflamável, e, like usual, Anne rindo.

Mas o climão já estava instaurado. A cozinha havia sido invadida por todos os familiares, que nos olhavam, furiosos. Comecei a sentir uma pontada na têmpora. Olhei pra Anne, cuja risada insistente podia ser interpretada como sinal de um AVC eminente. Tentei ser prática: ?Vilter, se vc não quiser, não precisa ir com a gente, não tem o menor problema?, falei, entredentes, enfatizando o ?menor? e fingindo ternura. Vilter não respondeu, enquanto tentava arrastar a perna na qual o menino ainda estava agarrado. Todo mundo falava ao mesmo tempo. Anne fez um sinal estratégico para mim com a sombrancelha esquerda, e eu entendi: do local de onde estávamos, enquanto eu distraía os presentes com algum truque malabarístico, ela daria dois saltos mortais até a porta, abriria a fechadura com sua espada de neón cor de rosa, me puxaria pelas tranças e, assim, nos jogaríamos para fora do apartamento rumo à liberdade.

Mas ela sabia que eu não sairia de lá sem o rum. Nunca.

Com foco e paixão, utilizando minha mira raio-laser, localizei a garrafa de rum, oculta em alguns sacos plásticos, em cima da pia.Vilter saiu da inércia e começou a tentar se explicar. Me questionei interiormente sobre como a garrafa foi parar em cima da pia e estiquei o braço para pegá-la. Triunfante, achei que ninguém estava prestando atenção. Ledo engano. Neste exato momento, uma mão de aço interrompe meu movimento friamente calculado, e toma a garrafa de mim. Era a mãe de Vilter. Diálogo:

- O que é isso aqui???
- ...
- Rum?????
- ...
- Ah, não!!!
- ...
- Vocês não vão sair daqui com essa garrafa de rum pra beber na rua não!!!
- ...


Pronto. Além de destruidoras da união familiar, cachaceiras. Perfeito.

Eu queimava por dentro. Agora entendi o que Wynona Rider passou em Salém. A chama do constrangimento é pior do que o fogo da Santa Inquisição.


23h45. Olho pro céu e só vejo nuvens. A chuva não ia parar nunca mais na vida toda. Anne, alguns passos na minha frente corria, segurando a garrafa de rum, com um copinho de plástico na mão, xingando Deus. Eu, mais atrás, já desistindo de andar rápido, com um litro de Coca-cola na mão, todo sacudido. Começamos a perceber que trilhar a pé o caminho que liga Copacabana a Ipanema não havia sido boa idéia. Não sei porque não perguntamos a ninguém, a nenhum local, qual era a exata distância. Simplesmente, dentro de nossos cérebros insanos, achamos que dava para ir a pé numa boa. E fomos. E nos fudemos. Depois de toda a balbúrdia, Vilter ficou com pena do afilhado e acabou não indo ao show com a gente. Bom menino. E nossa única companhia naquela noite chuvosa de 31 de dezembro era o querido amigo pirata.

- Anne, vamos pegar um táxi? (implorando)
- Não!! (veemente)
- Porra, Anne, deixa de ser zura!
- Eu não sou zura, eu sou dura!


Poesia pura. Enquanto tentávamos conciliar o ato de beber com o de correr deu meia-noite, os fogos pipocaram, eu e Anne nos abraçamos rapidamente e continuamos na corrida contra o tempo. Disseram que o show começaria pontualmente 00h02 e, novamente, acreditamos. 15 minutos de um fantástico show pirotécnico no céu do reveillón mais famoso do Brasil e eu olhando pro chão, tentando não pisar em poça alguma.

Chegamos em Ipanema por volta de 00h40, e nem sombra do grupo de hiphop multiétnico no palco. Quarenta milhões de pessoas nos recepcionaram, proporcionando um clima super gostoso de bastante amizade e calor humano. Nos instalamos em uma esquina, na calçada, próxima ao palco, em frente à bicicleta de um vendedor de cerveja. Nosso camarote vip. Não sei se, por azar ou sorte, era debaixo de um prédio de janelões enormes onde, no primeiro andar, havia uma festa louca, provavelmente do neto do Chateaubriand. Contrataram a bateria da Grande Rio para animar os convidados, A vantagem é que podíamos alternar entre samba e hiphop, e foi super legal ser atropelada por mulatas, passistas, bumbos, tambores e agogôs que escolheram justamente o meu lado para passar.

A chuva proporcionou a formação no solo de uma laminha toda especial, típica de Ipanema, que parecia farinha láctea preta. Dali do nosso camarote pudemos ter o prazer de presenciar vários tombos de playboys e gringos bêbados. Em especial, um casal, loirinho, todo de branquinho. Caíram um por cima do outro, foi ótimo. Quem chafurda unido permanece unido. Muitas pessoas tropeçavam também na nossa bicicleta, pois teimavam em passar onde não deviam. Como, por exemplo, um playboy em coma alcólico sendo carregado pelos amigos também bêbados. Eu até tentei avisar, em vão. Todo mundo se embolou em cima da bicicleta, e caíram lá do outro lado, lindo, lindo. O do coma até acordou e, descalço como estava (não sei que moda é essa) pisou em cheio em um caco de vidro. Sangue pra todo o lado, ele urrava de dor, e logo depois começou a gritar que queria fazer xixi. A namorada, solícita, abaixou as calças dele e até segurou o pintinho, olha que amor. Depois ele vomitou. Falei com Anne: ?Vamos ficar por aqui mesmo, pra ver! Vai que ele faz cocô?? Super show.

Agora, o amor. Recebi uma ótima cantada de um menino. Cabelo descolorido, camisa do flamengo e, estourando, uns 15 anos. Primeira abordagem: ?Pô, gata. Nunca te vi, mas sempre te amei?. Segunda abordagem: ?Deixa eu provar do mel dos teus lábios?? Super gostoso. Di, irmão de Vilter, que havia aderido à insubordinação familiar, passou um tempinho conosco no show, e depois sumiu, voltou naquele momento, já no grau, com a camisa do avesso. Ele disse que o menino também comentou algo do tipo ?como é doce o beijo quando vem da sua boca?, mas eu não ouvi. Fiquei lisonjeada.

No final, lembrei que minha bolsa e TODO O MEU DINHEIRO havia ficado na casa de Vilter, na longínqua Copacabana, o que nos obrigou a refazer todo o calvário a pé. Só que, desta vez, muito mais cansadas e com muito mais chuva.


Feliz ano novo pra vocês também.


* Alguns nomes foram substituídos para preservar a sem-noçãozice de algumas pessoas.

Cagâncias

Jurema é uma amiga minha que anda sofrendo de problemas emocionais e intestinais.

Lulu diz
Menina, come manga. Manga é ótimo.

Jurema diz
Será mesmo?

Lulu diz
Garanto. Come no café-da-manhã. O intestino funciona que é uma beleza.

Jurema diz
Vou comer.

Lulu diz
Melhor que Actívia.

Jurema diz
Sabe que quando você escreve que ?cagou quilos?, eu sempre paro uns 5 segundos achando que é literal?

Lulu diz
É só uma metáfora, amiga.

Jurema diz
E sabe que uma amiga minha, quando viu o menino por quem ela era apaixonada entrar no msn, ela ficou tão nervosa que se cagou todinha?

Lulu diz
Jura? Melhor que manga??

Jurema diz
Pois é. Pura emoção. Teve que jogar a calcinha fora.

Lulu diz
Que delícia.

Jurema diz
To pensando aqui. Como eu ando com uns probleminhas de prisão de ventre, acho que vou pedir para Silvan (meu objeto de desejo) entrar no msn também.



Jurema é ótima. :o)

Porto da Barra

O Porto da Barra é uma das praias mais pitorescas do mundo. Talvez só perca para a praia de Icaraí e adjacências, onde a grande bizarrice reside no fato de que não tem mar, e sim um grande lamaçal, onde as pessoas insistem em mergulhar. Aliás, esquisito mesmo é que elas acreditam que o líquido no qual estão chafurdando está liberado para banho.

Mas o Porto é um balneário limpo, águas plácidas e mornas, que servem de manjedoura para um pôr do sol arrebatador. Um cenário de tranqüilidade e paz que se opõe diametralmente à barbárie de sem-noçãozices que assisto toda vez que resolvo pôr meus pés em suas areias escaldantes. Em meio a milhares de turistas, ?periguetes? e ?putões? se misturam às crianças mais barulhentas de Salvador, vira-latas, bolas de futebol desgovernadas, vendedores de queijo coalho e de bronzeadores (suspeitos na mesma medida), mendigos, alguns ótimos negões (em sua maioria, capoeiristas) e várias pessoas que se amarram num sambalelê, como eu. Adoro. Abriu o sol, saio correndo de casa e me jogo lá, toda refestelada na minha canga linda, de motivos indianos. Canga esta que, invariavelmente, está sempre cheia de flocos de areia, jogados por um ou outro pé mais incauto.

Tava eu lá, deitadinha e tostante ao sol, enquanto ouvia minha musiquinha no meu radin de pilha. Alguém me interrompe. Era um negão. Bem, como todos sabem dos meus pobrema nas vista, eu achei que fosse um negão. Eu também não tenho lá muito senso de proporção, e ignorei o fato de que eu estava deitada, com o sol batendo em cheio na cara, e ele de pé, contra a luz. Enfim, negão. Óbvio. Fiquei contente. Óculos escuros, sunga vermelha, brilhando. Não, não eram os óculos ou a sunga vermelha que brilhavam. Era ele. Puro óleo de bronzear. Parecia que tinha se jogado em uma tina de óleo de bronzear. Inclusive, pude divisar meu próprio rosto refletido em seu tórax reluzente e bem torneado. Saradíssimo, me interessei e dei um peteleco no fone de ouvido, desobstruindo meu canal auditivo cujo funcionamento, também de conhecimento geral, é constantemente afetado por uma surdez galopante que teima em se manifestar nas piores horas. Ele disse algo que eu não compreendi, deixou a carteira ao meu lado e, sem esperar resposta, correu para o mar.

Alguns minutos depois, vejo o moçoilo retornando da água, com mais bossa que Helô Pinheiro. Brilhando. Naquele momento, seguindo as orientações de minha companheira de trabalho, dona Anne, tentei compará-lo com algum passante, para constatar a estatura. E percebi que ele, efetivamente, não era um negão. Tampouco nego médio. Sua altura parecia regular com a de um menino de uns 11 anos que jogava frescobol próximo à água, podendo ser enquadrado na categoria neguinho. Orei para Jeová. O pior estava por vir.

Ele perguntou se poderia se sentar ao meu lado. Pelo que me consta, a praia ainda é pública, mas nem tive tempo de responder, pois ele, acachapantemente, se sentou. Na minha canga.

Alguém pode procurar o verbete ?propriedade privada? no Google, por favor?

Começou a falar alguma coisa, que eu não prestei muita atenção, pois estava ocupada tentando puxar o pedaço da MINHA CANGA que estava debaixo de suas nádegas besuntadas. Foi quando ele disse que era cantor de um grupo de pagode. Opa. Perguntei onde ele tocava. Ele disse que ia tocar em uma das praças do Pelourinho, domingo à tarde. E arrematou, dizendo que me colocaria para dentro, tipo convidado VIP de evento patrocinado por celular. Pelo que me consta, a grande maioria dos shows que ocupam os palcos das praças do conjunto arquitetônico do Pelourinho, tombado pelo patrimônio histórico brasileiro, são gratuitos. Especialmente, domingo à tarde.

Percebendo que eu havia pressentido o caô, rapidamente mudou de assunto e de tom, decaindo para uma cantada barata ao começar a elogiar meu cabelo, que, naquele momento, estava completamente afro-étnico-black-power. Eu sei que eu estava lindíssima, mas não era motivo para pedir meu telefone. Eu quis chorar. Inventei um namorado fictício, mas ele não se deu por vencido. E, lambendo os beiços, soltou: ?Imagina esse cabelão todo na minha cama???. P.A.N.I.C. Compreendi que era chegada a hora de me retirar. Horário de pico faz mal pra pele.

Por uma pernada do destino, meses depois, no Porto, eis que reencontro o ruela. Quando o vi ao longe, enfiei a cabeça na areia. Não adiantou. Dessa vez a sunga era amarela. Um pouco gasta, um pouco velha. Já tinha dado de si, de mi, de fá e de sol há muito tempo. Inclusive, e imagino que fosse proposital, o cós da sunga estava tão abaixo da linha do bom tom que deixava entrever alguns pêlos pubianos do mancebo. Puro charme.

Mais bezuntado do que nunca, imaginei que, por conta de eventuais dificuldades financeiras, ele estivesse usando óleo de soja (ou de dendê) no lugar de bronzeador. Um agrádavel odor de peixe frito se esgueirou por minhas narinas. Enquanto eu reclamava comigo mesma por minha falta de habilidade para ser grosseira, ele se sentou. Ao meu lado. Ninjamente, consegui tirar minha canga do caminho. A primeira coisa que ele perguntou foi se eu ainda estava namorando. ?Noiva?. Mudou o rumo. O assunto agora era trabalho. Disse que não estava mais tocando. Perguntei se ele trabalhava. ?De vez em quando, mas, no momento, estou só malhando.? Bom emprego. Decidi não falar mais nada, e comecei a arrumar minhas coisas para levantar acampamento. Foi quando ele viu algum conhecido, levantou, pediu pra eu segurar seus óculos de R$ 4,50 e não voltou mais.

Feliz com a privacidade reconquistada, joguei os óculos na areia, bem longe, e de novo me estirei languidamente em minha canga de motivos indianos. O sol brilhava com força, e pensei na possibilidade de trocar os óculos dele por um picolé de mangaba. Ele voltou. Caralho. Enfiei o picolé de mangaba no ouvido, e recomecei a rearrumar minhas coisas para relevantar o acampamento. Mesmo assim, ele se sentou, e começou a falar de dinheiro, viagens e malhação. E aí veio a pérola.

- Ah, tá sabendo que eu vou fazer um filme?
- É mesmo?
- É. Pornô.
- .

Olhei para o sol, na esperança de que os raios UVA e UVB me cegassem e me ensurdecessem. Não rolou. Dada a notícia, ele ficou um tempo em silêncio, olhando para o nada, com cara de quem havia acabado de chupar um cajá. Refletindo, talvez. Joguei tudo dentro da bolsa, incluindo o palito do picolé e algumas pás de areia, apressadamente. Ele tentou continuar, dizendo que o filme ia ser na Suíça, mas eu cortei. Triunfantemente grossa. Me despedi, dizendo ?olha ali meu noivo!?, e fui sartando. Ele acreditou, mas não desistiu. Disse que ia me ligar, sendo que eu nunca dei meu telefone a ele. Respondi ?Liga mesmo!?, para não contrariar.

Ainda deu tempo de vê-lo indo embora, cumprimentando metade da praia, provavelmente, pessoas que ele não conhecia. Foi uma imagem singular ver, emoldurado pelo amarelo da sunga meio frouxa, aquele exótico cofrinho oleoso, brilhando sob sol de Salvador.

Protético

Uma vez viajamos eu, mamãe e vovó para Caldas Novas (GO). Eu ainda era criança, e, portanto, deveria prestar obediência e fui, arrastada. Excursão de aposentados. Super legal. Eu, com uns 17 anos, me diverti horrores, como vocês podem imaginar. De 15 em 15 minutos tinha um bingo no ônibus, e os prêmios variavam de uma régua de plástico a um calendário de papelão. A viagem foi um saco, o maior atrativo do hotel era uma piscina de águas quentes, e a velharia boiando naquele caldo me fez ter pavor de canja até hoje.

Para chegar em Caldas Novas, pararíamos em Ribeirão Preto (SP ?) e em Araxá (MG). O hotel de Ribeirão era lindo, ótimo quarto, o café-da-manhã dos deuses. Dormimos duas noites lá. Na segunda noite, como sempre acontece em viagens com minha doce avózinha, ela sempre deixa para arrumar as malas em cima da hora. Como iríamos sair do hotel de manhã, o ?em cima da hora? significa ?de madrugada?. Para passar apenas duas noites, ela simplesmente retirou todas as tranqueiras de dentro da mala, e arrumou o quarto como se fosse passar o resto da vida lá. Eu, que já estava com tudo pronto, fui dormir mais cedo. Por volta de umas 3h, 4h da manhã, vovó me acorda, gargalhando. Irritada, ?O que é, vó???. Ela não conseguia falar de tanto rir. Mamãe, sentada na outra cama, parecia rir e chorar ao mesmo tempo. Cocei o olho, tirando as remelas. Olhei bem. E vi tudo preto. Literalmente, um buraco negro. A pressão baixou. Vovó foi comer amendoim e quebrou um dente da dentadura.

(nesta hora, parei de escrever e fiquei lembrando de tudo. O momento foi indescritível)

Não sei se foi sorte ou azar, o dente quebrado era um mais lateral, e não um frenteiro. Imagino que, se fosse o da frente, a tragédia seria total. Um dente quebrado do ladinho dava pra disfarçar, desde que não se sorrisse muito. Mas, sei lá porquê, talvez pela sutileza do buraquinho recém-aberto ali no cantinho, tudo ficou muito mais cômico.

Claro, não pra mim. Naquela época, ainda não fazia parte do meu caráter rir da desgraça. Eu era uma adolescente estresssada. Levantei da cama num pulo. Vovó não parava de rir, apontando para mamãe com o dente quebrado, culpando-a por ter oferecido o amendoim maldito. Mamãe, agora, parecia estar mais rindo do que chorando. O quarto estava uma zona, porque todo mundo desistiu de arrumar as malas. Tive uma idéia. Mandei mamãe procurar na bolsa, e fui telefonar para a recepção.

- Vocês têm super bonder aí?
- Super bonder? É marca de camisinha?

Mamãe não achou nenhuma cola na bagagem. O ônibus ia sair umas 6h, 7h, e, como a gente é pobre, não perderíamos por nada aquele café-da-manhã com cara de buffet de festa de 15 anos. Descemos. Não sei porque, mas, naquela manhã, vovó estava excessivamente simpática. Toda sorrisos. ?Vô, pára de rir!?. Cumprimentou o porteiro, a camareira, o ascensorista. Mamãe dava uns cutucões, para ver se ela se mancava. Encontramos todo mundo da excursão. Vovó, simpatia pura. Eu, um balde de constrangimento. Mamãe foi perguntar ao gerente se ele tinha algum vidrinho de cola dando sopa no hotel. Vovó, nem aí, batendo papo e sorrindo pra Deus e o mundo, só na buraqueira. O gerente, percebendo o nosso sofrimento, se solidarizou, e foi conosco até a mercearia que tinha ao lado do hotel. Fechada. Acordamos o dono da mercearia, que abriu mais cedo. Mas não tinha super bonder. Só sei que o gerente acionou um boy do próprio hotel, que foi de moto até o posto de gasolina mais próximo, comprar a porra da cola. As duas subiram correndo para o quarto, tomar as providências. A excursão atrasou uns 30 minutos, mas, graças a Nossa Senhora que Desata os Nós, deu tudo certo. A dentadura ficou novinha em folha, e vovó nem reclamou dos dez reais pagos na cola, mais a taxa de entrega.

sábado, janeiro 06, 2007

Colonização

Anne diz:
Lulu, só arranjo homem que gosta de bater DR (bater DR = discutir a relação)
Daqui a pouco vou até escrever um livro.


Lulu diz:
tá feita na vida

Anne diz:
isso tá sendo tão rico pra minha experiência como mulher, ser humano, pessoa que quer entender mais a respeito da "alma" (se é que ela existe) masculina

Lulu diz:
homem não tem alma. É tudo oco

Anne diz:
Acho que a mesma idéia que os povos europeus tinham dos indíos no início da colonização eu tenho a respeito dos homens hoje.

Lulu diz:
Isso. Tem que escravizar todo mundo.

domingo, dezembro 10, 2006

Marcaurélio

Eu sou uma pessoa humilde, sem muitas restrições, sem muitos caprichos. Enquanto tem gente por aí cheia de especificidades que só gostam de orientais de roupa colegial, ou de morenos altos de olhos verdes donos de Pajeros, pra mim o que cair na rede é filé. Até funcionários de projetos sociais na área da reciclagem (vulgarmente conhecidos por ?catadores de latinha?) me interessam. Mas assumo, e não me orgulho: minha única ressalva é a estatura. Baixinho não rola. Pode até rondar por volta dos 1 e 70 e poucos, que eu faço o esforço de abolir a plataforma. Menos que isso, out. Já tentei, e não deu certo.

Hoje recebi um torpedinho: ?Oi, Lu, quanto tempo, tô com saudades, vamos nos encontrar??, que pode ser lido como: ?tô de bobeira e quero te comer?. Era Marcaurélio. Pensei em responder: ?Meu filho, tô em Salvador e aqui os negões são enormes?, mas resisti, pois o torpedo tá pela hora da morte e a bolsa não tá sobrando.

Conheci Marcaurélio num sambinha lá pros idos de 2003, séculos atrás. Eu ainda era uma jovem ingênua de coração puro e sentimentos nobres. Resolvi chamar meu ex namorado pra sair. Just friends, eu juro. Não rolava mais, já que ele ainda insistia em usar sandália com meia e macacão jeans. Justamente por isso virou ex. O macacão era um velho amigo cansado de guerra, apertado na bunda e pescando siri. Namoramos 1 ano e meio, e até hoje não sei como eu pude. O macacão resistiu. Eu não.

Mas naquela tarde de sábado, o pagodão comendo e eu sem muitas opções de acompanhamento, resolvi apelar. Ele topou na hora, e disse que ia chamar os amigos. Apareceu todo perfumado, sem as fatídicas sandálias franciscanas, e sem nenhum amigo. Meninão.

Fomos. Chegamos. O lugar estava cheio, e quando vi algumas possibilidades eventuais de pegação, percebi a grande burrada sem volta que havia cometido.

No canto extremo, diviso as linhas interessantes de um negão bem razoável. Como havia muita gente, só dava pra ver a cabeça. Só a cabeça. De longe, era impossível (ao menos pra mim, que sou absolutamente sem-noção) descobrir qual era a altura dele. Ele me olhava fixa e libidinosamente. Adoro. Fez um sinal para mim. Tentei responder, mas meu ex não saía do meu lado, sambando esquizofrenicamente. Tentei responder em código morse, só na sobrancelha. Não obtive sucesso. O negão sinalizou que ia me esperar lá fora. Tentei dar um zignal no meu ex, naquela hora mais balançante que um boneco de Olinda. Disse que ia comprar água, e zapt! saí correndo. Ao longe, vi meu paquerinha no portão, ansioso. Quando olho para trás, quem vinha em meu encalço? Seu Boneco. Quis chorar. Comprei a água, resignada, e retornei ao meu ponto de partida. Tentei um segundo zig, e disse que ia ao banheiro. Meu ex: ?Ah, eu vou com você!?, animadão. Fiz um xixi desconsolado. Voltei.

O negão em desespero tentava se comunicar através da linguagem dos sinais. Encontrei um amigo e apresentei ao meu ex, para ver se conseguiria distraí-lo. Tive outra idéia brilhante, estratégia de guerra total. Pedi a uma moça papel e caneta, e, relembrando os aprendizados da Arte do Arqueiro Zen, escrevi o nome de uma música de Dona Ivone Lara, e pedi ao meu ex, tão solícito desde o começo da noite, que entregasse o pedido aos músicos, e aproveitasse para sair de perto de mim (preferencialmente, que fosse depois para o inferno). O puto não quis ir. E olha que eu realmente me amarro na música. Puto. Fui comprar outra água. A bexiga cheia me fez novamente ir ao banheiro, seguida de perto pelo meu fiscal, que plantou-se solenemente na porta. Ia perguntar se ele não queria me secar, mas, repentinamente, tive outra idéia.

Bebi o restinho da água até não sobrar gota sequer, peguei o papel com a música anotada, guardado estrategicamente por mim, e escrevi meu telefone. Joguei dentro da garrafa e tampei. Saí do banheiro, serelepe. Agora, era só arrumar um jeito de entregar a garrafa ao negão. Ok.

Meu ex resolve (suspiro sem saco) me chamar pra dançar. Enquanto dançava, por cima do ombro dele, mostrei a garrafa para o negão. Tudo discretamente. Resolvi ir ao banheiro de novo (!!). No meio da muvuca, que havia aumentado enormemente, na escadinha que dava acesso ao toalete, o negão me esperava. Havia muita gente. MUITA. Momentos de pura tensão. Sem hesitar, corri, empurrando as pessoas, com a garrafa na mão, empurrando também o sem noção do meu ex, que me seguia, colado. Acho até que dei-lhe um pisão no pé, a fim de despistá-lo. No instante em que passei pelo negão, na mesma hora em que tentei colocar a garrafa na mão dele, ele tentou colocar na minha mão, NA MESMA MÃO COM A MESMA MÃO, um papel. Um papelzinho. Segundo aquela lei da física, vários corpos e mãos no mesmo lugar, aquela coisa do vuco-vuco, não ia rolar. Foi uma luta. Mais sagaz que ninja samurai, o negão conseguiu pegar a garrafa, AO MESMO TEMPO em que enfiava o papel no bolso de trás da minha calça.

Parêntesis: Como eu me enquadro na categoria periguete-cachorrona-purpurinada, só ando de calça de stretch da Gang, e, como todos bem sabem, a fim de diminuir qualquer volume extra para não comprometer o efeito-espartilho, os bolsos frontais desse tipo de calça SEMPRE são falsos. Ou seja, não havia bolso para ser enfiado o papel. Desespero. Nesta hora, enfiei a unha na mão do negão, que entendeu, e conseguiu enfiar o papel no bolso de trás.

Este episódio todo durou, mais ou menos, uns 7 segundos. Ninguém percebeu nada, e saímos da muvuca. O céu brilhava de estrelas, e neste momento, começaram a tocar a música da Dona Ivone, ?Mas quem disse que te esqueço?. Meu ex dançava no meio da galera, feliz. Respirei aliviada.

Depois da missão cumprida, até esqueci do negão e fomos embora. Meu ex resolveu me levar em casa. Foi ótimo, apesar dele tentar me roubar uma bitoca, sem sucesso. Não me julguem mal. Alguns meses antes ele havia me sacaneado de leve. Además, el amor se acabó. Eu não sou leviana. Passar por aquela tensão toda foi um ato de extrema consideração para com ele. O que os olhos não vêem a testa não sente.

Cheguei em casa e procurei o telefone no bolso da calça. Não achei. Virei e revirei a peça pelo avesso. De repente, caiu uma poerinha. Fui ver. Era um minúsculo pedacinho de papel, todo amassadinho, menor que a ponta da unha do meu dedo mindinho esquerdo. Sem brincadeira. Nele, havia um número impresso. Só. Parecia que ele havia, no meio da multidão, o samba comendo, pegou um cartão de visita no qual o número dele aparecia, e o recortou, com a mão (óbvio) milimetricamente, deixando apenas o seu telefone, e nada mais. Samurai.

No dia seguinte. ?Oi, tudo bom? Era você que estava no samba ontem, à noite...??, e logo fui interrompida, ?Ah! Você é a mulher da garrafa??? Marco Aurélio dava aulas de francês, comme il faut, e praticava pólo aquático. Imaginei logo a bagagem cultural e o tamanho do braço. Marcamos.

No dia seguinte, resolvi ir com meu salto mais alto, de acordo com o alto nível da figura. Ele atrasou uns 20 minutos. Eu já estava sentindo certas dores na coluna que se agravaram consideravelmente quando ele chegou e fui obrigada a me curvar em quase um ângulo de 90 graus para cumprimentá-lo com dois beijinhos.

Ora, mas bem que eu deveria ter dado uma chance ao rapaz, vocês irão dizer. Mesmo sendo quase anão. Afinal, os anões também amam. Foi o que eu fiz. Alma caridosa, esqueceram? Mas ele era mané. Infelizmente. Afinal, os anões também podem ser manés.

Tanto esforço.

Eventualmente, nos reencontramos sem querer em outros sambas gratuitos nos espaços públicos cariocas. Da última vez, ele tentou me roubar uma bitoquinha, mas eu me desvencilhei. Quando vi que ele ia insistir, saí correndo para pegar o ônibus. E, não me perguntem como ? afinal, além de quase anão, ele era meio ninja ? Marcaurélio, estupenda e acrobaticamente, conseguiu pular e dar uma mordiscada certeira bem na minha bochecha direita.

Só pra tornar tudo muito pior, Anne estava por perto e viu tudo.


Doeu pra caralho, e isso não tem graça.*




* No maternal, um moleque filho da puta mordeu minha bochecha, motivo de profundos traumas na fase adulta. De qualquer maneira, valeu por eu já estar imunizada contra tétano e raiva.

sábado, dezembro 09, 2006

Menino, e não é que hoje me deu aquela vontade doida de escrever?

Mas já passou.

De qualquer maneira, para não perder de vez a consideração dos meus inúmeros e maravilhosos leitores, vou postar um textículo que achei por aí. O autor é desconhecido, mas é ótimo, como tudo que não respeita as leis do copyright. Gostaria de tê-lo escrito. O texto está meio datado também, afinal, a criança já vai fazer uns 4 anos (e, em breve, estará saindo em carreira solo), Paulinha terminou com Caê, e Carlinhos Brown... bem, esse não tá fazendo nada de muito diferente não. Espero que, em breve, dona Marisa nos brinde com mais um novo herdeiro.


A primeira festa de aniversário de Mano Wladimir


Mano Wladimir está tenso. No colo da mãe, Marisa Monte, ele ainda não conseguiu entender exatamente o que está se passando. Ao seu lado, Carlinhos Brown conversa com Wally Salomão, que cita uma poesia de Caetano Veloso, que dá um brigadeiro orgânico (sem chocolate e sem leite condensado) para Zeca, que leva um pito da mãe, Paula Lavigne. Mano Wladimir está tenso. É a sua primeira festa de aniversário.

"Criança sã/De uma rã/Guardiã/Eu sou seu fã/Na manhã/Aramaçã/Cunhã". A música infantil escrita por Arnaldo Antunes especialmente para a festa é a trilha sonora da dança das cadeiras. Nada da Turma da Mônica, nada de atores desempregados vestidos de Pikachu. Aqui a coisa é diferente. MM resolveu ser mãe em grande estilo e contratou a Companhia Bufa de Artes e Performances do Absurdo para animar a festa.

Fantasiado de Ed Motta, um ator recita de trás para a frente toda a obra de Eça de Queiroz para algumas crianças. Do outro lado da sala, um grupo de clowns (sim, porque numa festa como essa é proibido ter palhaço) ensaia uma volta à posição fetal enquanto ostenta reproduções dos parangolés de Hélio Oiticica. Num canto, Carlinhos Brown dá uma entrevista para uma repórter da revista Bravo, escalada especialmente para cobrir o evento.
? E aí, Brown? Está feliz com o primeiro aninho do Mano Wladimir?
? É uma coisa da modernidade nagô, no que tange a referência espaço/tempo do ciclo da história humana. O cósmico supremo da realização superlativa, a poética da bioenergia enquanto motor da sublimação ótica. É onde o eu e o tu fundem-se na epiderme inconsciente.
? E o que você deu de presente para ele?
? Pensei na questão do pacifismo, na guerra como catalisador das emoções humanas ao mesmo tempo em que atrai e repudia o ser. A máquina ceifadora que gera vibrações orgânicas, que tangencia e descontinua a unidade solar dos povos.
? Como assim?
? Eu dei um boneco dos Comandos em Ação...

Enquanto as crianças não podem comer o bolo de cenoura, aniz e mel de cana, que traz estampada uma reprodução de "O Abaporu", de Tarsila do Amaral, em sua cobertura, Marisa Monte serve a elas copos de suco de gengibre e balas de cravo da Índia. Até que Paula Lavigne tem a idéia de chamá-las para um karaokê.

Quem começa a brincadeira é Benedito Tutankamon Pedro Baby, cinco anos e filho de um dos roadies de Arnaldo Antunes, que canta "O Avarandado do Amanhecer", de Caetano Veloso. Em seguida é a vez de Zabelê Tucumã Nhenhé Çairã, três anos e filha da empresária de Carlinhos Brown, que canta Ana de Amsterdã, de Chico Buarque. Ao saber que a próxima criança a cantar é a impronunciável Zadhe Akham Mahalubé Sinosukarnopatrionitnafilewathua, filha da copeira de Marisa Monte, Paula Lavigne acha melhor suspender o karaokê.

É hora do "Parabéns pra Você". Os convidados reúnem-se em torno da mesa. E então, Marisa Monte anuncia uma surpresa: quem irá cantar o "Parabéns" é Carlinhos Brown.

Brown, que andava meio sumido depois de sua entrevista para a Bravo, aparece vestido com um cocar feito de canudinhos de plástico, uma camisa de jornal e uma tanga de folhas de bananeira. Atrás dele, 315 percussionistas da Timbalada, um videomaker e quatro poetas marginais. Brown pega um garrafão de água mineral e começa a cantar sua versão para Parabéns a Você:

? Vim para cantar/A tropicália alegria de um povo/Azul, badauê, zumbi/Ela não me quer/Mas sou um tacle regueiro/Viva o divino samba de João/Monarco na rua/Meu bloco chegou.

Arnaldo Antunes se empolga e começa a recitar poesias descontroladamente, Marisa Monte gorjeia e improvisa algumas melodias, a Timbalada toca um samba- reggae, Paula Lavigne cai na farra e Caetano acha tudo "lindo". O videomaker filma tudo e Wally Salomão escreve o release. Os poetas marginais aproveitam a confusão para roubar uns docinhos.

Um executivo de uma grande gravadora, que entrou de penetra, contrata todos os presentes e promete CD, DVD, livro, críticas favoráveis no New York Times, participação de David Byrne e especial de televisão. Para comemorar, Arnaldo
Antunes põe um disco de Lupicínio Rodrigues. O ator vestido de Ed Motta cospe fogo. Marisa Monte lê Mário Quintana em voz alta. Mano Wladimir chora. É a sua primeira festa de aniversário.

Marisa, em momento reflexivo, tentando escolher mais nomes divertidos para seus próximos rebentos

sábado, setembro 30, 2006

Promoção da Gol

O pessoal paga 1 real na passagem e ainda quer segurança?
Fala sério.


Variante:
Slogan
"Pague 1 real para viajar e , como bônus, conheça a Floresta Amazônica de perto."




Eu não sou má. Apenas estou tentando relaxar um pouco, antes de subir naquele boeing cheirando a novo, segunda, 22h40. Crianças, rezem por mim. Aguardem notícias.

sábado, setembro 02, 2006

ANUNCIO A TODOS QUE, EM BREVE, FAREI A AQUISIÇÃO DO MAIS ULTRA-MEGA- DOUBLE-POWER-EXTRA-FRESHMAKER COMPUTADOR DO MERCADO BAIANO
(movido a azeite de dendê)

Por enquanto, ainda enfrento os percalços de uma vida à margem da periferia da exclusão digital.

Não que isso evite que meu senso crítico continue funcionando com perspicácia.

Como minha tv é daquelas com 6 botões, cada um respectivo a um canal, a gente deixa direto na Globo pq todo mundo fica com preguiça de levantar (já que, obviamente, o modelo do aparelho é anterior à era do zapping via controle remoto). Além disso, não é sempre que o SBT tá pegando (já tentei botar Assolan na antena e nada). Desta feita, tenho observado de maneira profunda como a vênus platinada vem estruturando sua grade de programação. E assim constatei, com horror e asco, que a Globo simplesmente está levando ao ar, AO MESMO TEMPO, três produções teledramatúrgicas com Mariana Ximenes figurando em papéis de destaque.

Eu sei, eu sei, eu sei que depois do silicone, a moça deu um up na carreira. Mas precisa tanto???

(olhando para o céu com ar de súplica) Por que, meu Deus, por quê???

Se joga no kanekalon, Mariana!!! (no botox também)

Sinto que isso faz parte da estratégia de um plano macabro e maquiavélico por parte do clã dos Marinho em eleger Mariana a próxima presidente. Inclusive, tenho informações a respeito que a próxima estratégia de marketing político do PT será colocar um megahair acaju médio em Lula, cuja verba de campanha será quase inteiramente gasta em babylisses de última geração.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Sociedade inclusiva

Pois é, criançada, tô enrolada de novo, e só disponho de 5 minutos para escrever aqui, a fim de voltar correndo rapidinho para o artigo que eu tenho que terminar até sexta-feira. Sábado vou fazer faxina na casa, e se der, refazer as tranças, em prol de me preparar para a chegada de minha ilustríssima coleguinha Anne.

Ainda sem computador, meus contatos com meu amigo ciber-taxista gatinho estão rareando. Meu ex-marido angolano-maluco anda me deixando estressadíssima, especificamente pela mania que ele tem de dormir na sala, na poltrona, sentado, com um lençol na cabeça. Dia desses, 2h da manhã, levanto pra fazer um xixizinho e tomar uma aguazinha. Eis que me deparo com aquela manifestação ectoplasmática, gasparzinho de quinta, na escuridão da madrugada, com o caralho do lençol na cabeça. Nem preciso dizer que, imediatamente, todos os meus músculos se enrijeceram, meus pêlos se enriçaram e o xixi deu uma pingadinha. Fiquei em dúvida na hora de optar por duas reações: gritar desesperadamente ou destroçá-lo com minha espingarda-bazuca ultrapossante.

Resolvi não fazer nada, e voltei pra cama, com medo de eventuais outras manifestações kardecistas naquele apartamento xexelento. Fui dormir com sede.

Na noite seguinte, igual a uma velha coroca, acordei de novo com sede. Aproveitando a ausência de entidades sobrenaturais pelo caminho, fui na cozinha, e descontei a secura da noite passada. Bebi meia garrafa de um litro e meio de água (façam as contas dos ml), só de raiva.

De manhã fiz xixi na cama.

No meu colchão novo, NOVÍSSIMO, que parcelei em 5 vezes na Insinuante.

Ai, que ódio.


* * * * *

Como minhas incursões em meio à selva do mundo masculino não têm sido muito frutíferas, ando resolvendo diversificar. Continuamos trabalhando com negões (preferencialmente solteiros), mas agora estamos visando outros públicos-alvo específicos, de acordo com as novas tendências do mercado em atender às demandas das políticas de inclusão.

Eu já o tinha visto em um show aqui na UFBA, umas duas vezes no Pelourinho e uma vez no pagode do Mercado Modelo. Lindo, gato, com um bração gigante, mas, como ele nunca veio falar comigo (talvez pela dificuldade locomotiva), eu também não fui, porque sou tímida.

Semana passada, na estação de ônibus da Lapa (cujo volume populacional é 4,5 vezes maior que o público da Central do Brasil), me deparei com ele, lindo, tentando subir a escada rolante. Ele não me viu, e eu resolvi oferecer ajuda. Ele agradeceu, e disse "nossa, como você é linda", e eu fiquei com a maior vergonha do mundo, mas sorri e apressei o passo. Na hora de atravessar a rua, vi que ele estava quase ao meu lado, olhando pra minha cara e falando aqueles gracejos bobos, típicos de homens, mesmo que não sejam bobos (aliás, todo homem é bobo). Eu, sem graça, e nada do sinal fechar, aí perguntei a um rapaz onde ficava a ladeira da Barroquinha. Ele, feliz, se ofereceu pra me mostrar o caminho. Aceitei, e fomos caminhando, com alguma dificuldade, porque o calçamento é irregular, e ele teve que ir seguindo pela rua. Ele me perguntou se eu gostava de reggae, e quando eu disse que não, senti certo desapontamento. "Mas você não usa tranças?". E daí, porra? Alicia Keys usa também, e "I shot de sheriff" não faz parte do repertório dela. Ele, lindamente, pagou uma água de coco pra mim. Verdadeiro cavalheiro (a água custou 40 centavos, um milagre da economia baiana). Batemos mais um papo, ele disse que vendia bijouterias no mercado modelo (opa!), e me chamou pra sair dia desses (ele tocava no Olodum também). Já pensei logo nos benefícios de ir de graça a algum ensaio, e me animei. Nos despedimos, e eu perguntei se ele queria ajuda pra subir a ladeira, mas ele não aceitou, visto que aqueles braços enormes têm força suficiente para conduzir a cadeira de rodas, mesmo no Rally Dakar.

Em scrap no orkut, mando a seguinte mensagem para Anne:

"- Amiguita, será que, tal qual meu amigo Everton ciber-taxista-virtual, será que esse negão-gato-bração-cadeirante tem orkut?

- Pô, Lulu, por que você não dá uma olhadinha em alguma comunidade, como 'Sou brasileiro e não desisto nunca', ou na de 'Paraolimpíadas', ou, quem sabe, na comunidade 'Eu amo Herbert Vianna'?"



Amigota, Salvador será pequena demais para nós duas. Ti mamu.